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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tecnologia brasileira contra malária vira referência mundial

Um medicamento contra malária desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fundação Oswaldo Cruz (Farmaguinhos/Fiocruz), o ASMQ, recebeu a pré-qualificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que garante o alto padrão de qualidade do produto.

A certificação foi anunciada na Índia, onde o medicamento é fabricado graças à transferência de tecnologia da cooperação Sul-Sul (agenda própria de discussões entre Brasil, Índia e África do Sul criado em 2003 e que incluem temas como ciência e tecnologia, educação, agricultura, sociedade e informação, defesa, assentamentos humanos, meio ambiente e clima, transportes, geração de energia, desenvolvimento social e experiências em administração pública). Com isso, a dose fixa de artesunato (AS) e mefloquina (MQ), desenvolvida pelo Farmaguinhos em parceria com a organização Medicamentos para Doenças Negligenciadas, terá maior facilidade para ser distribuída no Sudeste Asiático.

O coordenador de pesquisa clínica de Farmanguinhos, André Daher, explica que o tratamento com as duas drogas já era usado, mas a nova formulação, registrada no Brasil e distribuída pelo Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária desde 2008, oferece tratamento mais fácil e eficiente.

"Quando você tem duas drogas associadas numa única formulação previne a monoterapia, ou seja, o paciente não toma uma droga só. Com isso você garante a cura radical da doença, previne o aparecimento de cepas resistentes e tem toda uma questão logística de distribuição desse medicamento dentro do sistema de saúde pública facilitado, uma vez que você tem uma única apresentação sendo distribuída. Também melhora muito a adesão ao tratamento, quer dizer, o paciente toma o tratamento completo e você tem uma chance maior de cura", disse.

De acordo com o pesquisador, esse é o tratamento para malária com uso do menor número de comprimidos atualmente e pode ser aplicado a partir dos 6 meses de idade. "Você tem quatro tipos de tratamento, divididos por faixas etárias, mas são todos com uma tomada diária durante três dias e não precisa ser ingerido com nenhum tipo de alimento especial. O fato de ser uma única dose diária melhora muito a adesão do paciente e ele apresenta maior tolerabilidade, com menos efeitos colaterais".

Daher explica que a pré-qualificação da OMS é um tipo de registro internacional que permite a distribuição para vários países por meio de um mecanismo de compra centralizado da Organização. De acordo com ele, a fábrica Cipla, na Índia, conseguiu o certificado para distribuir o ASMQ no Sudeste Asiático. Agora o Brasil inicia o processo de pré-qualificação para a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), o que permitirá distribuir o medicamento para a América Latina.

O pesquisador destaca a importância da cooperação que permitiu a transferência da tecnologia para a Índia. "A gente acha [a pré-qualificação] muito importante, porque ela coroa uma transferência de tecnologia entre dois países do sul e uma cooperação tecnológica Sul-Sul. [Brasil e Índia] eram atores, há até pouco tempo, pouco atuantes no mercado tecnológico e, agora, o Brasil começa a se posicionar como ator mais importante para a cooperação Sul-Sul no âmbito tecnológico, inclusive em tecnologias em saúde".

Segundo a OMS, a malária é a quinta doença que mais mata no mundo. Ela é provocada pelo parasita do gênero Plasmodiun, transmitido pela picada da fêmea infectada do mosquito do gênero Anophele, conhecido como muriçoca, mosquito-prego ou carapanã. No Brasil, 99,5% dos casos são registrados na região da Amazônia Legal. No mundo, África Subsaariana e Ásia são os locais com maior incidência. A doença, também chamada de impaludismo, causa sintomas como dor de cabeça, no corpo, dor abdominal, tontura náusea, fraqueza, febre alta e calafrios.

Fonte: Jornal da Ciência.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

UFF usa tecnologia para estudar as causas da neurofibromatose

Sequenciamento de última geração pode levar ao tratamento da doença. Professora que deu início aos estudos recebe prêmio da Academia Brasileira de Ciências.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Organização da ONU para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), junto com a L'Oreal, homenageiam, nesta quarta-feira (26), no Copacabana Palace, as sete cientistas vencedoras do Prêmio Para Mulheres na Ciência deste ano.

Entre as premiadas, destaque para a carioca Karin Soares Cunha, professora adjunta de Patologia Oral da Faculdade de Odontologia do Pólo Universitário de Nova Friburgo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ela foi premiada com o trabalho "Sequenciamento de nova geração: revolucionando a análise mutacional do gene da neurofibromatose tipo 1". O estudo avalia as mutações de gene que causa a doença, que pode gerar múltiplos tumores de origem neural e manchas na pele. O mal ainda não tem cura.

Em entrevista, a professora fala sobre o que a levou a iniciar os estudos e a importância do trabalho para a vida de milhares de pessoas. As laureadas receberão bolsa-auxílio no valor equivalente a R$ 20 mil, que ajudará na continuidades das pesquisas.

O que é o trabalho?
O objetivo é utilizar o sequenciamento de nova geração para estudar as mutações do gene NF1, responsáveis pela doença, e também tentar colaborar na compreensão das correlações, que ainda pouco são compreendidas, entre as mutações do gene e as manifestações clínicas da doença.

Em linhas gerais, o que é a neurofibromatose tipo 1?
A neurofibromatose tipo 1 representa uma das doenças genéticas mais comuns, com uma prevalência de um caso a cada 3 mil nascimentos, e pode causar várias manifestações clínicas. Dentre as principais, a presença de múltiplos tumores de origem neural, chamados neurofibromas, e manchas na pele conhecidas como manchas café-com-leite.

O que causa a doença?
Ela é causada por alterações, ou seja, mutações, em um segmento do DNA, chamado gene NF1. Este gene é muito grande e complexo e, consequentemente, sempre houve dificuldade para o estudo das suas mutações. Sequenciá-lo significa conhecer a sua sequência de bases [adenina, timina, citosina, guanina] e saber o que está alterado. Isto é um grande desafio quando são utilizados sequenciadores convencionais, sendo muito trabalhoso, demorado e caro.

O que é exatamente "sequenciamento de nova geração"?
O sequenciamento de DNA tem evoluído rapidamente nos últimos anos. O projeto genoma, iniciado em 1990, por exemplo, custou três bilhões de dólares para sequenciar as três bilhões de bases do genoma humano e demorou 13 anos. Atualmente, por exemplo, é possível sequenciar, com a tecnologia de nova geração, todo o genoma humano por mil dólares em apenas algumas horas. A vantagem dos sequenciadores de nova geração é a capacidade de sequenciar milhões de bases de uma única vez [em uma única corrida].

Por que o verbo "revolucionar" usado no título da pesquisa?
Face a todas as dificuldades encontradas no sequenciamento do gene NF1, os sequenciadores de nova geração tornam-se a tecnologia ideal, possibilitando uma verdadeira revolução, com análises mais seguras, rápidas, simples e com menor custo por indivíduo. Os protocolos, até então usados para as análises das mutações do gene NF1, utilizam sequenciadores convencionais, além de outras metodologias, sendo muito trabalhosos e demandam vários dias de trabalho para sequenciar o gene de um único indivíduo. Neste nosso trabalho vamos poder sequenciar o gene NF1 de 64 indivíduos com a doença em apenas um único dia. Vamos utilizar a tecnologia mais moderna no que se refere ao sequenciamento de nova geração, usando chips semicondutores.

Qual a importância do trabalho?
Com este estudo, iremos compreender melhor a doença e isto certamente permitirá um futuro promissor para pacientes e familiares, com a possibilidade de desenvolvimento de terapias eficazes. Além disto, será possível disponibilizar aqui no Brasil o teste molecular para a NF1. Isto é importante em alguns casos em que não se consegue estabelecer o diagnóstico da doença pelos aspectos clínicos. Por exemplo, cerca de metade dos pacientes com NF1 sem história familiar não apresentam os critérios para o diagnóstico com um ano de idade e 5-10% destas crianças não preenchem os critérios com a idade de seis anos. Além disto, cerca de 2% de indivíduos que preenchem os critérios de NF1 têm síndrome de Legius, que é uma outra síndrome, e traz menos complicações do que a NF1.

Como surgiu a ideia de realizar este estudo?
A ideia de sequenciar o gene NF1 surgiu em 2004, quando iria iniciar o meu doutorado. No entanto, encontramos muitas dificuldades financeiras e, além disto, não havia a disponibilidade dos sequenciadores de nova geração, o que era um grande dificultador. Acabamos esquecendo, temporariamente, o projeto, mas agora, com o equipamento em nosso laboratório e com o prêmio recebido, isto se tornou possível. O equipamento foi adquirido no final do ano passado com um projeto maior, que envolveu a participação de vários professores do Programa de Pós-Graduação em Patologia da Universidade Federal Fluminense, para estudos de diversas doenças, além da neurofibromatose tipo 1.

Quando teve início o estudo?
Eu estudo a neurofibromatose desde 2000, quando iniciei o mestrado em Patologia Oral na Universidade Federal Fluminense. Continuei estudando no doutorado e pósdoutorado. Atualmente, temos vários alunos de graduação, mestrado e doutorado trabalhando conosco, além de professores colaboradores da nossa instituição e de outras universidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Este estudo especificamente ainda não começou. O prêmio recebido irá possibilitar a compra de todos os reagentes indispensáveis para esta pesquisa. Imagino que em breve teremos resultados bem interessantes.

Há, hoje, um tratamento eficaz para a neurofibromatose tipo 1? Como está a pesquisa científica neste campo?
Os ensaios clínicos para tratamento das alterações das NF têm sido realizados há mais de 10 anos, mas ainda não temos um tratamento eficaz para as Neurofibromatoses. Alguns medicamentos têm mostrado resultados promissores, mas ainda há a necessidade de mais estudos. Neste ano, eu ajudei a editar um livro, publicado por uma editora de Nova York, intitulado "Advances in neurofibromatosis research (Avanços na pesquisa na neurofibromatose)", voltado para pesquisadores e profissionais da área de saúde e biológicas, com o objetivo de divulgar os avanços dos estudos. Neste livro, contamos com a colaboração de vários pesquisadores conceituados do Brasil, Estados Unidos, Austrália, Áustria, França e Itália.

Fonte: Jornal da Ciência.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Três tecnologias fantásticas de raio X que já são realidade

A tecnologia atual trouxe importantes avanços no uso do raio X para as áreas da saúde, artes e astronomia.

O raio X é algo bastante comum em nossa sociedade. Normalmente, ele é usado por médicos e dentistas — para esses profissionais verem detalhes interiores do corpo humano — ou empregados na inspeção de produtos nas indústrias, no estudo de estruturas da matéria na ciência e para a checagem de bagagens nos aeroportos.

Sem dúvida, este tipo de tecnologia — que existe desde 1895 — se tornou importante em diversas áreas. Só no setor da saúde, a descoberta do raio X pelo físico alemão Wilheelm Conrad Rontgen revolucionou o “acesso” a ossos quebrados e a detecção de doenças sérias (como câncer) sem que fosse necessário abrir o corpo de alguém.

Hoje, mais de cem anos depois que Conrad Rontgen realizou a primeira radiografia, os avanços da tecnologia também resultaram no uso do raio X como base de invenções incríveis (e bastante úteis). Confira:

1 – Microscópio de raio X
A NASA está envolvida em uma invenção única até o momento: o “X-Ray Microscope”. Tal dispositivo tem a capacidade de utilizar o raio X em nível microscópico, resultando em imagens de estruturas de carbono com alta resolução e contraste — o que dá aos pesquisadores uma ampla compreensão quanto à constituição de amostras biológicas e suas características microscópicas.


Essa invenção também beneficiará as áreas que envolvem pesquisas com DNA e RNA, além de estudos de doenças graves, como AIDS e câncer.

2 – Encontrando novas obras e combatendo a pirataria
Os avanços tecnológicos no uso do raio X trouxeram benefícios até mesmo ao mundo das artes. Hoje, pesquisadores conseguem identificar quadros falsos de uma forma mais eficaz. Além disso, novas obras de consagrados pintores também estão sendo descobertas apenas pela capacidade que o raio X dá de “olhar” através das pinturas.

Grandes nomes como Van Gogh, Rembrandt e Picasso tinham o costume de reutilizar telas, sobrepondo imagens. Com o raio X adaptado para isso, é possível descobrir as obras escondidas desses pintores.

3 – Desvendando os mistérios do espaço
Qual o resultado da junção de um satélite com a tecnologia de um raio X? A possibilidade de explorar o espaço, capturando imagens e dados como geometria, atividade e temperatura de diversos astros.


Com essas informações, os cientistas podem compreender melhor o funcionamento de outros objetos espaciais e realizar diversas descobertas importantes ao mundo da astronomia — como aprofundar as pesquisas relativas à vida e à morte de estrelas, por exemplo.

Curiosidades: tecnologias baseadas no conceito de raio X
Em muitos filmes e quadrinhos, a “visão de raio X” aparece como um recurso bastante útil a heróis e vilões para enxergarem através de paredes e objetos. Apesar de ainda não existir um raio X que realmente realize isso, hoje já existem algumas tecnologias que se baseiam neste contexto e que trazem funções bastante úteis para a área militar.

Capacete high-tech
Na área militar, o raio X está sendo empregado para coisas bastante interessantes. Entre elas está o capacete desenvolvido pela empresa inglesa BAE Systems, que dá ao piloto a incrível capacidade de ver através de sua aeronave.


Para isso, o capacete possui um display integrado e interage com câmeras que são acopladas por todo o avião, utilizando sensores para identificar o exato local para o qual o piloto está olhando. Assim, com as câmeras colocadas no lado externo, o dispositivo também envia as imagens para o display do capacete e dá ao piloto a capacidade de “ver” através da carcaça da aeronave.


O capacete, denominado de Striker, ainda permite ao piloto colocar um “símbolo” nos pontos de interesse que ele vê no chão quando está voando. Depois disso, com o apertar de um botão, o sistema também irá calcular as coordenadas daquele objeto.

Vendo através da parede
Seguindo o melhor estilo “Super-Homem”, um novo projeto do MIT pretende dar a soldados a capacidade de “enxergar” através das paredes. Para isso, um dispositivo permitiria que um radar penetrasse em paredes de até 20 centímetros.

Apesar do grande avanço nesse sentido, o projeto ainda não fornece uma imagem clara de raio X como vemos nos quadrinhos do Super-Homem. Até agora, o resultado obtido pelo dispositivo está mais próximo de um mapa de calor.
 

Segundo os cientistas envolvidos, o sistema apresenta em uma tela “bolhas” que representariam os humanos se movimentando atrás da parede. O projeto, no entanto, já está sendo mais aperfeiçoado e o próximo passo seria transformar as “bolhas” em símbolos mais claros — dando ao usuário final uma melhor compreensão do que estaria sendo “visto” através da parede.

Fonte: Tecmundo.

domingo, 16 de setembro de 2012

Erradicação da pobreza exige melhores educação e serviços

As raízes da desigualdade social no Brasil são velhas conhecidas. Remontam ao período colonial, apontam historiadores. Da concentração de terras nas capitanias hereditárias e da força de trabalho escravo baseado na violência até um processo abolicionista conveniente a proprietários escravocratas, o Brasil legava um terreno fértil ao avanço do desequilíbrio na distribuição de renda – a quarta pior da América Latina, segundo levantamento da ONU divulgado há 15 dias. Embora a estabilidade e o crescimento econômico da última década, somados a programas como Bolsa Escola e Bolsa Família, tenham reduzido os déficits sociais e promovido a badalada ascensão da Classe C, o vigor de sexta economia mundial revela-se ainda insuficiente para extinguir a miséria que assombra 16,2 milhões de brasileiros, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como as famílias de Gorete e Antônia, moradoras do Rio, apresentadas nas duas primeiras reportagens desta série. Com menos de R$ 70 per capita mensais, confiam no assistencialismo, na criatividade e na educação dos filhos para superar a pobreza extrema que contrasta com os cartões-postais e a projeção internacional impulsionada por Copa e Olimpíadas.

No combate à pobreza, algumas das armas que têm se mostrado mais efetivas são os programas de distribuição de renda idealizados e aperfeiçoados por governos de diferentes colorações políticas. Do tucano Fernando Henrique Cardoso ao petista Luiz Inácio Lula da Silva e à sucessora Dilma Rousseff, o poder central vem recorrendo àquele tipo de inciativa para dirimir uma das maiores desigualdades do continente. Apesar dos avanços, o desequilíbrio mostra-se inferior apenas às de Guatemala, Honduras e Colômbia, segundo o relatório das Nações Unidas sobre a região. Um atraso que destoa, por exemplo, dos investimentos estrangeiros no país – quase US$ 66,7 bilhões no ano passado – e das ambições de figurar entre cinco primeiras economias do planeta e de conquistar uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU.

O Estado do Rio é um dos emblemas desse paradoxo verde-amarelo. Por um lado, comemora a volta dos investimentos e da autoestima capitaneados pelos grandes eventos internacionais. Por outro, estampa, longe dos holofotes, casos de pobreza extrema. Em 2010, o Rio foi o estado brasileiro que mais recebeu investimento nacional e internacional, conforme apontou o Relatório de Anúncios de Projetos de Investimentos (Renai), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Até 2013, receberá US$ 18,45 bilhões, projeta a Receita.

Os números generosos ainda não alcançam os 586 mil habitantes que, segundo o Censo 2010 do IBGE, batalham contra o nível mais rasteiro de pobreza no Rio, no qual são enquadradas as famílias cuja renda per capita mensal fica abaixo de R$ 70. Indiferentes a classificações, Gorete e Antônia, e outros tantos Brasil afora, renovam a esperança de que parte dos investimentos mude suas vidas. Sonham com o básico: emprego, casa e educação para que os filhos possam "progredir e se manter afastados do caminho das drogas". No dia a dia assombrado pela memória e pelo medo da fome, eles encontram sabedoria para buscar trilhos menos efêmeros do que as fontes assistencialistas. Confirmam, instintivamente, o consenso acadêmico de que a solução vai além do aumento de renda. Nesta reportagem, que fecha a série Feições da Miséria, gestores públicos e especialistas discutem os caminhos para superação da pobreza e da desigualdade crônicas no país.

Educação precária contribui para a permanência na pobreza, observam especialistas As famílias visitadas pelo Portal apresentam traços sociais comuns, que ajudam a explicar o estágio de "pobreza extrema", de acordo com classificação do IBGE: baixa escolaridade, acesso deficiente à saúde, à educação, ao lazer e ao mercado de trabalho. O baixo nível educacional os empurra para o emprego informal e mal remunerado, como bicos de pedreiro e serviços domésticos sem qualificação.

O secretário de Assistência Social do Rio, Rodrigo Neves, reconhece a necessidade de as políticas de transferência de renda caminharem juntas de iniciativas "compensatórias" ou complementares. Um dos responsáveis pela implementação do programa Renda Melhor no estado, o sociólogo de formação ressalta que é importante "enxergar a pobreza em seus diversos ângulos":

– Sabemos que a pobreza é um fenômeno multidimensional. Não adianta resolver só o problema de distribuição de renda. Uma trajetória de inclusão social passa pela educação.

Embora o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) divulgado no mês passado tenha apontado um (pequeno) avanço em relação à avaliação anterior e escolas do Rio tenham obtido a segunda, a terceira e a quarta melhores médias do ranking nacional, o estado também conta com uma escola entre as cinco piores da avaliação. Mais um retrato da desigualdade no estado, e a confirmação do longo caminho para a educação pública tornar-se compatível, por exemplo, com as aspirações econômicas e com a carga tributária em torno de 40% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma das riquezas produzidas no país.

Baixa escolaridade, lembram os acadêmicos, admitem os gestores, é um obstáculo, entre outros dramas, ao emprego, ou ao melhor emprego, à inclusão social, ao aumento da renda. Irriga uma ciranda difícil de ser quebrada até pelos planos de transferência de renda, observa Francisco Menezes, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), fundada em 1981 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

– Trabalhar e ter uma renda são o que permite uma família sair da pobreza extrema. A falta de serviços é a principal barreira a ser vencida. Uma família no fundo do poço não tem condição de o pai e mãe procurar um emprego e nem de mandar um filho para a escola. Uma mãe que não consegue vaga em uma creche não encontra condições de entrar no mercado de trabalho – exemplifica Menezes.

O cientista político e coordenador do Instituto Mais Democracia (IMD) João Roberto Lopes Pinto, concorda com esta lógica e acrescenta que a baixa renda não é o único ponto a ser combatido pelo estado:

– A pobreza não tem a ver apenas com a renda, mas também com a falta de acesso a direitos básicos como transporte público de qualidade, saúde pública e educação pública de qualidade. O programa de transferência de renda é positivo, porém a política publica está mais focada nesta coisa de gerenciar a pobreza e não de pensar soluções mais estruturantes para a desigualdade no país.

Falta de qualificação prejudica aproveitamento de recorde de empregos Deficiência na qualificação prejudicam o aproveitamento do recorde de geração de empregos registrado em abril desta ano na Região Metropolitana. Foram abertos 14.235 postos de trabalho, informa o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Em todo o estado, as novas vagas chegaram a 18.541. No entanto, parte delas se manterá ociosa por falta de profissionais qualificados.

Pesquisa feita, no ano passado, pela Federação das Indústrias do Rio (Fierj), constatou que 60% das fábricas instaladas no país pretendiam aumentar o número de funcionários. No entanto, a maioria delas (53%) encontrou dificuldades para preencher os novos postos de trabalho justamente por causa da escassez de mão-de-obra capacitada.

Especializada em pesquisas referentes a pobreza e desigualdade social, a socióloga Maria Sarah da Silva Telles, do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, avalia que a solução demanda um "trabalho estrutural":

– Se não for acompanhado de uma política de geração de empregos bem remunerados, de qualificação dos jovens da rede pública, a situação continuará precária: os cidadãos mais fragilizados precisam da ajuda do Estado para poder se sustentar, viver dignamente, pagar suas contas, acompanhar os estudos de seus filhos etc. Só assim teremos uma sociedade justa e menos desigual.

Alto custo de vida deixa os mais pobres ainda mais vulneráveis Os altos investimentos aportados no Estado são acompanhados de um dos maiores custos de vida do continente. Os grandes eventos programados para a cidade aquecem a economia, mas também a inflação. De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a Região Metropolitana do tem a maior inflação entre as 11 regiões pesquisadas pelo IBGE. Enquanto no país a inflação média ficou em 2,32% até junho, na região fluminense fechou em 3,16% no mesmo período. A carestia deixa as famílias mais pobres ainda mais vulneráveis, afirma Francisco Menezes:

– O Rio está caro demais. Os grandes eventos trouxeram uma explosão nos preços. A população mais pobre fica mais suscetível diante da alta dos preços, agravando a miséria no estado. Há politicas emergenciais, como cozinhas populares, mas não são suficientes.

O mar de investimento que cobre o Rio é visto com desconfiança por João Roberto Lopes, autor do livro Economia solidária: de volta à arte da associação (Editora Empório do Livro). Para ele, a lógica dos investimentos na cidade serve, sobretudo, para reforçar a concentração nas mãos de um grupo e não para beneficio "de quem realmente precisa":

– Estes investimentos estão voltados para os ganhos e negócios de poucos, uma lógica de concentração, de elitização da cidade, muito mais do que investimentos mais distributivos e descentralizados pela cidade. Não geram uma distribuição, pelo contrário, deslocam recursos que deveriam ser utilizados em políticas sociais efetivas em termos estruturantes. A ausência de recursos em políticas sociais mais efetivas acaba reproduzindo este quadro de pobreza não só no Rio mas no pais inteiro – opina.

Se no país o limite da renda per capita para uma família ser classificada em pobreza extrema é de R$ 70, no Estado do Rio este valor aumenta por causa do alto custo de vida. Para tornar mais justos os "parâmetros da miséria" no estado, Rodrigo Neves subiu o teto para R$ 100 per capita.

– Adotamos uma linha de miséria de R$ 100 por mês para cada integrante da família. Essa linha é maior que a linha do Brasil sem miséria, de R$ 70/mês. Nós consideramos que a pobreza no Rio, por ser um estado metropolitano, o custo de vida é mais alto e o limite para a linha da pobreza deveria refletir isto. Por isso uma linha mais generosa – justifica.

Menezes ressalta que o direito ao alimento, garantido pela Constituição, não deve ser barganhando como mero produto de mercado:

– O alimento é um direito. Está na Constituição. Tem que ser garantido, caso contrário há uma grave violação do direito constitucional. O alimento não pode ser tratado como mais um produto comercial a ser negociado na bolsa.

Bolsa Família apresenta resultados positivos mas insuficientes, ressalvam analistas.

Quase 20 anos depois de o Bolsa Escola ser implantado, em 1994, no governo Fernando Henrique, e perto de o Bolsa Escola, implantado no governo Lula, completar dez anos, os programas de transferência de renda apresentam resultados positivos. Entre 2002 e 2006, a miséria no país caiu 27%, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Órgãos internacionais como o Bird e a Organização Internacional do Trabalho elogiaram publicamente o projeto e ressaltaram a necessidade de se ampliar seu uso.

Rodrigo Neves rebate as críticas aos programas do gênero nesses anos. Lembra que os planos de distribuição de renda contam, atualmente, com um cadastro único utilizado pelas três esferas de governo no país. Enfatiza que são "republicanos alheios a manipulações eleitorais".

– Pela forma como [o Bolsa Família] foi implantado, sua gestão blindou o programa para fins eleitorais. Porque ninguém é dono do cadastro único ou do beneficio. A porta de entrada é absolutamente republicana. Além disso, um conselho de controle social formado pela sociedade civil pode receber denúncias de não-cadastramento. A seleção é feita por critérios técnicos do governo federal. O caráter técnico do trabalho diminuiu o clientelismo. Algumas auditorias foram feitas via TCU e ficou demonstrado que, independente da filiação partidária de prefeito ou governador, não houve privilégio a qualquer município – assegura.

O "republicano" Bolsa Família não deixa de ser uma importante máquina eleitoral. Em 2010, ano de eleição presidencial, uma pesquisa do Ibope constatou que 22% dos eleitores nordestinos recebiam o Bolsa Família. Na região, para cada voto em José Serra, a presidente Dilma, que representava a continuidade de Lula, logo a permanência do projeto, teve o dobro.

Neves acrescenta que o programa tem "forte controle" de órgãos como o Tribunal de Contas da União (TCU). Ele diz também que o "efeito preguiça”, apontado como uma das principais ameaças, "não foi observado" e o Bolsa Família, assim como o Renda Melhor e o Renda Jovem no Rio, ajuda a aquecer a economia:

– Esses programas têm um peso pequeno quando se compara com o PIB. O Bolsa Família beneficia 13 milhões de famílias e custa meio por cento do PIB. Prova de que não pesa tanto nas contas nacionais. E tem um efeito multiplicador nas economias locais, gera mais negócios, mais empregos e mais impostos. Em certo sentido, se autofinancia e ajuda o país a crescer, quebrando aquele dilema que diz é preciso crescer primeiro para depois distribuir. O efeito preguiça não foi comprovado. Observa-se um discreto aumento dos beneficiados no mercado de trabalho.

Embora reconheça os resultados positivos de programas do gênero, Francisco Menezes pondera que algumas cidades do interior do país ainda estão sujeitas ao clientelismo e a desvios de dinheiro público destinado a ações de distribuição de renda:

– O Bolsa Família é um ótimo projeto no plano federal. Mas, em alguns municípios, ainda se vê clientelismo e desvio do erário público. É um desafio grande. Sem contar que há moradores de rua que não estão no cadastro do governo federal. Nos rincões do país, onde não se tem informação, a pobreza persiste.

João Roberto Lopes diz que o programa é "importante, mas limitado para dar conta da complexa realidade social dos que vivem na miséria". Ele propõe a inclusão de outras políticas que ajudem a melhor garantir os direitos sociais:

– É uma proposta positiva (o Bolsa Família) e contribui para reduzir a pobreza, mas como se vê pelas últimas pesquisas a desigualdade é persistente e marca a estrutura social brasileira. Contudo, é um programa com potencial limitado para responder à desigualdade estrutural, e me parece que hoje a lógica do governo federal, mas também em outros níveis, é focar muito nesses programas em detrimentos de outras políticas que possam assegurar uma promoção efetiva de direitos sociais.

Maria Sarah estende a responsabilidade à sociedade civil. Com a experiência da pesquisa na favela Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, para a sua tese de doutorado, a professora avalia que nos acostumamos com a pobreza urbana:

– A sociedade brasileira não conseguiu, até hoje, fazer uma opção cidadã. Nossa opção tem sido a de nos habituarmos a conviver com a pobreza, como parte de nossa paisagem urbana, e com um salário mínimo de R$ 622 para uma grande massa de brasileiros.

Perto do Corcovado e da bela vista para a Baía de Guanabara, Gorete e seus cinco filhos esperam por condições que possibilitem a mudança do casebre mal iluminado, quase em ruínas, e a entrada no mercado de trabalho. Em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, Antônia, o marido e os filhos confiam nos sacolés no freezer de segunda-mão para esticar a renda decorrente da assistência dos governos estadual e federal. Pertencem ao meio milhão de moradores do Rio que se equilibram no fio da "pobreza extrema" e torcem para que investimentos como o novo Maracanã e o novo Porto se convertam em perspectivas de melhor emprego, educação e serviços públicos.

Fonte: PUC Rio Digital.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"No futuro, tecnologia substituirá 80% dos médicos", diz cofundador da Sun

Vinod Kholsa, investidor de origem indiana do Vale do Silício e cofundador da Sun Microsystems, afirmou na última semana, durante uma conferência de inovação tecnológica na área da medicina em São Francisco, Estados Unidos, que a tecnologia irá substituir aproximadamente 80% de todos os médicos espalhados ao redor do mundo.

Kholsa foi o cofundador da Sun Microsystems e fez seu legado como um dos principais investidores durante o boom da internet na década de 1990, com suas empresas de gerenciamento de redes.

De acordo com o blog Health Care, em sua apresentação, o investidor afirmou que acredita que a tradição médica foi a responsável por atolar os médicos em práticas similares ao vodu. Além disso, Kholsa afirmou que as máquinas, impulsionadas por grandes conjuntos de dados e poder de cálculos, não só formariam uma opção mais barata, precisa e objetiva, mas muito melhor em comparação aos custos de um médico médio.

"Eventualmente, nós não precisamos de um médico", ressalou o investidor em sua apresentação.

Quando Kholsa confrontou o público perguntando se alguém tinha a capacidade de discordar dele, toda a audiência do evento ficou em silêncio. Ao final de sua apresentação, muitos profissionais da área começaram a enviar suas críticas ao projeto do investidor através de blogs e do Twitter.

Segundo o Venture Beat, Vinod Kholsa ainda irritou os médicos quando afirmou que a ruptura na área da saúde é suscetível de ser conduzida por empresários fora da indústria, e não por especialistas da área médica. As observações feitas por Kholsa sobre o setor não são nenhuma novidade, já que no começo deste ano ele escreveu um artigo, intitulado "Do we need doctors or algorithms?' (Precisamos de médicos ou de algoritmos?, em tradução livre), no qual defende a importância da inteligência artificial no futuro da medicina.

As críticas aos comentários de Kholsa foram de encontro à questão do Big Data da saúde e, principalmente, ao fato de que os mecanismos eletrônicos do setor poderiam ser criados e conduzidos por empresas e pessoas sem especialização na área médica. Especialistas afirmam que a experiência e o conhecimento médico são fundamentais para a condução de projetos de tecnologia médica.

Acredita-se que Vinod Kholsa utilizou o argumento da falta de necessidade de médicos para o desenvolvimento de tecnologias para o setor como uma hipérbole, visando chamar a atenção para sua defesa sobre o futuro da medicina. Outros críticos ainda afirmaram que Kholsa tem razão quando defende uma grande modificação no sistema médico mundial.

E ainda durante seu discurso, Vinod Kholsa afirmou que está investindo em produtos e tecnologias para a área médica como, por exemplo, o investimento de US$ 1 milhão (cerca de R$ 2 milhões) no Cellscope, acessório para o iPhone que transforma sua câmera em um microscópio para diagnosticar infecções de ouvido.

Fonte: Portal AZ.

domingo, 2 de setembro de 2012

Eletrodo desenvolvido no Brasil reduz custo de exame da retina

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram a versão nacional de um eletrodo usado na eletrorretinografia (ERG), exame que permite avaliar respostas elétricas da retina a estímulos luminosos e ajuda no diagnóstico de doenças oculares.

Os resultados do trabalho foram apresentados durante a 27ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), realizada em Águas de Lindoia entre os dias 22 e 25 de agosto.

“O Brasil atualmente importa esses eletrodos, que são descartáveis e custam entre US$ 30 e US$ 40 cada. Desenvolvemos um produto similar, mas com preço quatro vezes menor”, contou Adriana Berezovsky, coordenadora da pesquisa financiada pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

O eletrodo tem cerca de 3 centímetros e, como a versão importada, é feito de fibra de tecido com um filamento de prata. Durante a realização do exame, é introduzido no saco conjuntival da pálpebra inferior e permite captar os sinais elétricos emitidos pelas células da retina em resposta aos estímulos luminosos disparados pelo aparelho de ERG.

“Não há necessidade de anestesia. O paciente sente apenas um leve incômodo durante a colocação”, afirmou Berezovsky.

A retina humana possui dois tipos de fotorreceptores, que são células responsáveis por captar a luz e retransmitir o impulso elétrico para outras células e para o nervo óptico.

“Os bastonetes são responsáveis pela visão noturna e os cones, pela diurna. Mas algumas doenças causam a morte dessas células. Isso pode levar, por exemplo, à cegueira noturna ou à perda de visão periférica”, explicou a pesquisadora.

O ERG permite avaliar o funcionamento dos cones e dos bastonetes e, segundo Berezovsky, pode ajudar o oftalmologista a identificar problemas que, muitas vezes, precedem alterações perceptíveis no exame de fundo de olho, no qual o médico visualiza as estruturas que formam a retina.

Validação
Os pesquisadores testaram o eletrodo nacional em um grupo de 50 voluntários saudáveis e compararam os resultados com o de exames feitos com o equivalente importado. O desempenho de ambos foi similar. Os dados foram publicados nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, em 2008.

No ano seguinte, com auxílio da FAPESP por meio do Programa de Apoio à Propriedade Intelectual (PAPI/Nuplitec), a equipe entrou com pedido para patentear o eletrodo, que ainda está pendente.

Desde então, os pesquisadores têm comparado o desempenho da versão nacional e da importada em voluntários com doenças na retina. “Já testamos em cerca de 50 pacientes e tivemos bons resultados, mas ainda precisamos ampliar a amostra”, disse Berezovsky.

Os estudos têm sido feitos com doenças hereditárias como retinose pigmentária, distrofia de cones e doença de Stargardt. Os resultados preliminares foram apresentados no congresso da Association for Research in Vision and Ophthalmology (ARVO), o mais importante da área.

O eletrodo também tem sido testado para uso veterinário. O funcionamento da versão nacional foi comparado com o da versão importada em dez cães saudáveis da raça yorkshire terrier, com resultados parecidos.

“Os dados já foram submetidos para publicação em revista internacional. Agora pretendemos testar o eletrodo em cães com doenças na retina”, disse Berezovsky.

A equipe pretende também aperfeiçoar o modelo desenvolvido no Brasil. “Estamos estudando o tamanho e o material, para melhor adequar o eletrodo às necessidades do país”, disse.

Fonte: Agência Fapesp.